ARTIGOS

A arte do papel e a arte da vida
13.02.2017
O artesão Yasuo Kobayashi aceita o desafio e inova na milenar arte do washi.
 

Kobayashi-san: o papel washi é como o homem, envelhece e se fortalece com o tempo.

Um objeto tão comum em nossas vidas que esquecemos como sua invenção foi revolucionária e como tudo começou, há mais de 5.000. Seu precursor, o papiro, surgiu entre os egípcios, feito da fibra de uma planta extraída das margens do rio Nilo. O pergaminho, produzido a partir do couro caprino e mais resistente, deu continuidade ao processo inventivo até chegar ao papel chinês, feito a partir de uma massa umedecida de cânhamo e de fibras vegetais. Peneirada e exposta ao Sol essa massa era trabalhada e formava o papel do início do século II.

A invenção do papel revolucionou o mundo, foi capaz de mudar a forma como as pessoas aprendem, trabalham e se comunicam. Artes e história, funcionalidade e beleza tiveram o papel como ingrediente principal. Mas, com o passar dos anos e a introdução de processos industriais de fabricação, as técnicas artesanais foram se perdendo, esquecidas em todo o mundo. No Japão, ao contrário, a produção artesanal tem se mantido, uma história que percorre mais de 1.300 anos e segue até os dias de hoje, como um tesouro nacional.

O PAPEL WASHI

Quando foi introduzida no Japão, a produção de papel ganhou diferentes composições,e fibras locais passaram a ser usadas. O washié um dos papéis mais conhecidos, produzido a partir das fibras da casca do arbusto kozo—uma amoreira oriental —, sem adição de branqueadores químicos. Sua técnica artesanal éconsiderada Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO. 
 
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Por conta do processo cuidadoso de produção, o washi possui características únicas de força, beleza e durabilidade e pode ser usado nas mais diferentes aplicações, fazendo parte importante da vida e da cultura japonesa. Seu uso inclui o origami, obras de arte e fitas decorativas, luminárias e, também, as wagasa– a famosa e tradicional sombrinha japonesa. Por sua resistência e capacidade de deixar passar uma luz difusa, é usado em luminárias e como elemento de vedação em janelas, divisórias e portas de correr.

As qualidades do washi vêm da utilização de plantas de fibras longas em sua produção. Essas fibras possuem características naturais que suavizam a ação do tempo e aumentam a durabilidade, mantendo sua aparência e consistência por muitos anos. Mesmo resistente, o washi é conhecido por sua maciez e suavidade.

A fabricação requer trabalho e tempo.  As cascas da amoreira são colocadas de molho por vários dias e, em seguida, fervidas e limpas. As fibras são, então, separadas e novamente misturadas à água, filtradas em peneiras e deixadas ao Sol para secar. O processo é delicado, demorado. Para branquear as fibras, as tiras do material são expostas ao Sol sobre a neve, durante o inverno. Dessa forma, a fibra ganha um tom de branco natural e luminoso, impossível de atingir com o uso de branqueadores químicos.


 
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O milenar papel washi fará parte importante da JAPAN HOUSE São Paulo através de uma parceria inovadora entre dois grandes nomes japoneses: o artesão Yasuo Kobayashi e o renomado arquiteto Kengo Kuma. O primeiro dedicou a vida aos processos artesanais de papel. O segundo é conhecido por obras no Japão, China, França, Suíça, Itália e Reino Unido, entre outros países. Seu projeto para o Estádio Nacional do Japão foi escolhido como o palco central dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Para a JAPAN HOUSE São Paulo, Kuma-san projetou em parceria com o escritório paulistano FGMF Arquitetos espaços com telas vazadas de metal e imaginou-as recobertas de papel washi. Assim surgiu o desafio: Yasuo Kobayashi teria que inovar, levando o processo milenar a um novo patamar, incorporando as chapas metálicas na produção. Não foi fácil. Mas, muitos e muitos testes depois, Kobayashi-san conseguiu o efeito desejado.

Kobayashi-san é um respeitado estudioso das técnicas de fabricação do washi e fundador da Associação Cooperativa do Papel Washi de Kadoide, no Japão. Parte do seu trabalho é ensinar e promover o cultivo do arbusto kozo e a fabricação artesanal do washi. Em seu ateliê, utiliza técnicas maturadas ao longo dos séculos, que lançam mão dos recursos naturais locais e preservam o equilíbrio ecológico. Um exemplo é o tingimento dos papéis, feito com pigmentos obtidos a partir de cascas de árvores e nozes da vegetação nativa.


 
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