ARTIGOS

Correspondências Arquitetônicas: Brasil e Japão | Atelier Tsuyoshi Tane Architects
03.07.2020


A Japan House São Paulo e o Instituto Tomie Ohtake se uniram para a série "Correspondências Arquitetônicas: Brasil e Japão", uma troca semanal de cartas online que irá traçar um paralelo sobre temas relacionados ao MORAR nos dois países.

Querido Instituto Tomie Ohtake,

Na semana passada, começamos uma conversa sobre o adensamento urbano e tratamos de dois exemplos no Brasil e no Japão. Hoje, gostaríamos de contar um pouco sobre uma experiência japonesa de pensar o projeto a partir das memórias do local. Vocês conhecem o trabalho do arquiteto Tsuyoshi Tane? Ele foi tema de uma exposição muito especial que aconteceu na Japan House São Paulo.

Partindo da percepção de que um lugar não é apenas algo físico, mas um portador de memórias, Tane desenvolveu um método para seu processo criativo muito original, que ele mesmo apelidou  de “escavação”. Essa metodologia de projeto foi apresentada na exposição “Arqueologia do Futuro - Memória e Visão”, apresentada na Japan House em 2019.

Buscando criar um diálogo entre passado e futuro, o arquiteto inicia seus projetos com uma intensa pesquisa sobre o local onde irá construir. O processo de escavação envolve pesquisas extensas, busca de imagens históricas, textos e até mesmo artefatos relacionados ao lugar, transformando essas memórias em bases e conceitos para a nova arquitetura. A exposição na Japan House apresentava todo esse universo de objetos, imagens, modelos e desenhos que relacionavam o passado e o futuro dos projetos expostos, com um certo ar de gabinete de curiosidades, de catalogação arqueológica.

No projeto A House for Oiso (Uma casa para Oiso), executado em 2015 com os arquitetos Dan Dorell e Lina Ghotmeh, buscou-se adaptar diversas tipologias arquitetônicas experimentadas pelos habitantes da região ao longo dos séculos em uma residência contemporânea.

A cidade de Oiso, na província de Kanagawa, é de clima quente e litorâneo. Habitada desde o período Yayoi, a cidade ainda preserva muitos traços do passado. A proposta rastreia esse patrimônio, buscando capturar a essência da arquitetura vernacular japonesa produzida ao longo dos séculos. Suas referências foram: a moradia em cova do período Jomon, moradia de piso elevado do período Yayoi, cabana de pilares cravados no solo do período Medieval, machiya (casa de cidade) do período Edo e as vilas do período Showa.

A casa foi inserida 60 centímetros abaixo do nível original do terreno. O solo escavado foi reutilizado para os acabamentos do térreo, uma solução antiga, mas muito interessante por suas propriedades térmicas e de controle de umidade. Já o segundo andar, que remete à uma cabana elevada do nível do solo, é todo em madeira. Seu interior foi pensado de modo a otimizar a circulação do ar e evitar o acúmulo de umidade. O nome “Uma casa para Oiso” não foi escolhido por acaso. A residência é mais do que um projeto implantado naquela cidade, ela não poderia existir em mais nenhum outro lugar, pois as memórias resgatadas são específicas daquela cidade. Até mesmo os acabamentos foram realizados com o solo local. O edifício pertence não somente ao seu entorno, mas também ao seu passado e, agora, ao seu futuro. Esse respeito e consideração pelo passado são notórios na cultura japonesa. Esperamos que vocês tenham gostado de conhecer mais sobre esse projeto e o método criativo desse arquiteto. Adoraríamos saber um pouco sobre como as memórias e os saberes locais são incorporados aos projetos no Brasil. 

Um grande abraço,
Japan House São Paulo

Veja a resposta do Instituto Tomie Ohtake: leia aqui.











imagens Takumi Ota

Instituto Tomie Ohtake
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Atelier Tsuyoshi Tane Architects
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Exposição Tsuyoshi Tane | Arqueologia do Futuro – Memória & Visão
https://www.japanhouse.jp/saopaulo/event/tane.html